sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Eu era um dos últimos... teria me tornado uma pessoa melhor por isso?

Fonte: http://www.cracatoa.com.br/2008/08/05/e-eu-uma-pedra/

… e, eu, uma pedra…



Existe um episódio do Snoopy que se passa no dia das bruxas, o americano Halloween. Então as crianças todas fantasiadas saem em busca de prendas naquele estilo de gostosuras ou travessuras. Charlie Brown está vestido de fantasma, mas como foi seu cachorro quem lhe confeccionou a roupa, o seu lençol tem mais olhos do que os esperados e necessários. Na verdade, seu lençol está todo furado e tem olhos por toda parte.

Depois de cada visita, as crianças conferem o que ganharam do dono da casa. Todas ganharam doces, balas, chocolates.

- Ganhei doces!

- Ganhei balas!

- Ganhei chocolates!

Dizem elas, em seqüência.

Por último, Charlie Brown olha no fundo de seu pacote e descobre lá uma pedra. Ao que diz:

- E eu, uma pedra…

E durante todo o episódio a cena se repete. Em todas as visitas, Charlie ganha isso: uma pedra. Várias pedras.

Pierrot
De minhas leituras vagas pela internet e interesse por línguas vivas e mortas - embora não domine nenhuma completamente, tampouco a portuguesa - acabei por descobrir algo interessante que, aparentemente, nada tem a ver com esse texto. Pierrot, e isso parece tão óbvio agora, é o diminutivo de Pierre.

O último
Dificilmente alguém se identifica com Snoopy. Ao contrário. A maior parte das pessoas quando lê as tirinhas ou assiste aos desenhos se identifica com Charlie Brown.

É incrível como eu encontro entre meus amigos aqueles sempre eram escolhidos por último na hora de formar os times para a aula de educação física. São tantos que não é possível que tenha havido tantos times ou mesmo tantas aulas de educação física.

Ser escolhido por último constitui por assim dizer um paradoxo. Se você é o último, passa a ser mais uma falta de opção que uma escolha propriamente dita. Lembro de um colega, uma vez quando eu fui o penúltimo a ser escolhido, que simplesmente foi deixado para trás. Nem se deram ao trabalho de apontar para ele e dizer seu nome e chamá-lo para junto do time. Tal e qual ele não existisse.

Acredito que essa experiência traumatiza tanto que basta que ela aconteça apenas uma vez para que o sujeito lembre apenas dela e que assim todas as outras lembranças sejam nubladas por esse acontecimento. Daí tantos conhecidos escolhidos por último.

Para muitos, trata-se de um terrível medo. Não o de ser tornar um perdedor ao longo da vida. Pois perder todo mundo perde um dia.

Mas sim o pavor de existir e fazer parte do mundo das outras pessoas por falta de opções. E não por ser uma escolha delas.

Pierre
E Pierre, como todos já devem saber, é a versão francesa para Pedro.

Pierrot, de novo
A figura do Pierrot saída da Commedia Del’Art, gênero italiano de teatro, e saído sabe-se lá de que arquétipo, representa a ingenuidade e a espiritualidade. Por outro lado, Arlequim, é o lado mais matreiro e carnal.

Mahá-Bhárata
No Mahá-Bhárata - tradicional poesia épica hindu -, uma das cenas mais marcantes é quando é dado ao guerreiro Arjuna, prestes a entrar numa guerra, escolher entre ter a seu lado dez mil homens fortemente armados e treinados ou ter apenas Krishna. Mesmo ao saber que sua preferência daria os dez mil homens para os inimigos, ele fica com Krishna.

Ao fazer uma escolha, verdadeira, colocamos todas as outras por último. Ainda que elas sejam dez mil, fortemente armadas e treinadas.

Cristo
Então, Jesus escolheu Pedro e foi ter com ele:

- Pedro, tu és pedra. E sobre essa pedra farei as fundações de minha igreja.

Pedro, do latim Petrus. Petrus, a pedra.

Charlie Brown
Pierrot, diminutivo de Pierre. Pierre é Pedro, do latim, Petrus: a pedra.

- … e eu, uma pedra.

Charlie Brown é um pierrot.

Antes de se ser arlequim é preciso ser pierrot para não se tornar um completo canalha.

Tenho certeza de que ele cresceu e se tornou um cara legal.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando você diz sobre a experiencia que seu colega passou, acredito que foi você quem passou por tal situação e não se recuperou até hoje do trauma sofrido.... análise faz bem, mas não trará felicidade a ninguem.

nós somos responsaveis por nossas infelicidades, seja infeliz...